Pensando sobre Filme Ensaio Documental




Pegar do tecido do real o que lhe pareça importante, e com esse material construir a realidade do filme; expresando-o em cores, luzes, cortes, enquadramentos, montagem de sons, e todo o mais que a gramática audiovisual contemporânea possa oferecer. Este parece ser o exercício básico do cineasta que se arrisca a ensaiar livremente a partir de sua própria impressão de realidade, com os instrumentos tecnológicos disponíveis.
O cimento com o qual se monta o filme ensaio documental é uma mescla de substâncias gramaticais do cinema usadas em vários momentos do século 20. Nada tão novo que não já tenha sido experimentado por Vertov, Jean Vigo, Alberto Cavalcanti, Val Del Omar, Basil Wright ou Chris Marker. Mas parece que atualmente, com os equipamentos mais acessíveis economicamente e mais tecnologicamente adaptados à inventividade dos autores, o filme ensaio documental voa mais alto e mais longe.
Um filme ensaio, como prática documental, surgiria quando o autor ensaia pensar sem as garantias de um saber prévio. Para o ensaísta cinematográfico, cada tema lhe exige reconstruir a realidade. A forte subjetivizaçao de alguns documentários vai além do texto oral do realizador que narra em primeira pessoa. É um híbrido que resgata práticas formais das vanguardas históricas. Muitos cineastas experimentam expor seu ponto de vista através da gramática do cinema – sem recorrer à palavra oral. Produz-se um formato livre, que rompe divisões entre o documental e o imaginário, e combina todo tipo de elementos. Essa prática de representação audiovisual encontra base para sua construção na teoria dos gêneros literários, tendo o ensaio literário sido definido como gênero não marcado e livre de prescrições.
No filme ensaio, a materialidade do produto audiovisual: suas cores, planos, profundidades de campo, movimentos de câmara e montagem de som, pra citar alguns exemplos, funcionam como canal para a argumentação, uma opção ao uso de narração verbal como indicador do ponto de vista do autor.
Nos últimos anos, cada festival de audiovisual pelo Brasil e pelo mundo sempre seleciona um ou mais representantes dessas práticas, desses exercícios, desses experimentos; que representam a realidade do tema com a poética e sutilezas (às vezes nem tão sutis) de quem a vive, enxerga, critica....

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Autor

Produtor e diretor de documentários. Pesquisador da história e teorias do cinema de nao ficcçao. Master en Documental Creativo (Universidad Autonoma de Barcelona). Selecionado para o DocLab (HotDocs Festival, Toronto)